Reportagem de capa

VOCE SA

Para os candidatos, Bamberg criou um sistema interessante. O site, além de mostrar quais são os empregos que as empresas estão oferecendo, também presta serviços de aconselhamento de carreira. Quem quiser ter acesso a tudo paga 4 reais de assinatura. Quem preferir só deixar o currículo e mais nada não desembolsa um tostão. Se uma empresa ficar interessada, o site avisa por e-mail. E se o candidato não tiver computador? Bamberg então manda uma carta pelo correio avisando-o de que seu currículo chamou a atenção da tal empresa. "É uma maneira de prestar um serviço diferente e também de socializar a Internet", diz Bamberg.

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De todos os sites brasileiros de oferta de empregos, o mais antigo, populoso e bem-sucedido é o catho.com.br, criado pelo headhunter Thomas Case, dono da Catho, empresa paulistana de consultoria e recolocação de executivos. O site recebeu seus primeiros currículos em fevereiro de 1997. Se você acessar hoje o catho.com.br, vai ver que o cadastro dele é composto por mais de 61 000 empresas e 380 000 executivos. São números mais do que impressionantes, ainda mais considerando que o site americano futuresteps.com tem 350 000 executivos cadastrados. Além disso, Thomas Case afirma que tem cerca de 15 000 vagas disponíveis para brasileiros, sendo 8 000 apenas para profissionais de informática de São Paulo. São, ao mesmo tempo, números que provocam polêmica. "Não existem 15 000 vagas no Brasil", afirma Gutemberg Macedo, presidente da Gutemberg Consultores, empresa de recolocação de executivos. Para o mercado de trabalho em geral, executivos são aqueles profissionais que fazem parte da gerência para cima. Para a Catho, executivo é "qualquer pessoa que ganhe mais de 2 000 reais por mês", incluindo engenheiros, analistas de sistemas e contadores. Muita gente que ganha entre 2 000 e 3 000 reais, que trabalha em escritório e está tentando progredir na vida aplaudiria de pé a definição.

Polêmicas à parte, o fato é que o catho.com.br tem méritos. Enquanto a maioria dos sites se ocupa sobretudo das vagas de grandes corporações, o da Catho também come pelas bordas, investindo nas ofertas de emprego em pequenas e médias empresas. Das 61 000 cadastradas, cerca de 36 000 têm menos de 50 funcionários. Case criou um sistema de pesquisa por telemarketing, no qual 17 pessoas passam o dia ligando para empresas de todo o Brasil para saber se há vagas. Com isso, o site tem ofertas de emprego para um mundo de gente: desde farmacêuticos, balconistas e telefonistas a diretores de multinacionais, de Salvador a Porto Alegre. Dos cerca de 8 000 currículos de seu banco de dados, a maioria é de técnicos, gerentes e supervisores. Para se cadastrar, o candidato paga uma mensalidade de 30 reais e tem direito a um grande pacote de serviços, que inclui testes psicológicos, cursos e até consultoria on-line. De acordo com uma pesquisa feita por Case, cerca de 65% dos clientes estão satisfeitos com os serviços que recebem. E quantos realmente conseguem emprego? "Pelo menos 30% encontram trabalho, sendo que 10% deles apenas por intermédio do site", diz Case. "Mas não temos um controle rígido desses números. Somos a vitrine, não o controle de estoque."

Embora a Internet esteja revolucionando o mercado de trabalho, ela está a anos-luz do que pode vir a ser. O processo ainda está muito no começo. Mesmo nos Estados Unidos, só 1%, em média, dos executivos cujos currículos estão na rede acabam sendo efetivamente contratados. No Brasil, apesar de não existirem estatísticas a respeito, esse número deve ser ainda menor. Seja como for, o que se pode afirmar é que isso não impede que os brasileiros apostem firme na Web. A headhunter Laís Passarelli, da Passarelli Consultores, recebe cerca de 200 currículos por semana pela Internet (apenas durante a hora em que ela deu a entrevista para a VOCÊ s.a., chegaram quatro, sendo que um deles era de um diretor de operações, empregado, que queria mudar de empresa). O banco de dados da Passarelli já tem mais de 10 000 nomes.

Nas grandes corporações, o ritmo de recebimento de currículos por e-mail é ainda mais acelerado. No BankBoston, por exemplo, são 1 000 por mês, principalmente de possíveis estagiários e de candidatos a uma vaga de gerente. O site do banco foi ao ar no ano passado. Uma de suas principais missões era receber o currículo de candidatos a trainee. Para atraí-los, colocou cartazes nas principais faculdades paulistanas. Resultado: em um mês, o computador do banco ficou entupido com o desembarque de 7 000 currículos — 4 000 de faculdades de primeira e segunda linhas, e 3 000 das demais, inclusive de outros estados. Desses, 1 700 foram selecionados e 60 acabaram contratados. Abrir um por um dos e-mails e analisar as qualificações desse mundo de gente, obviamente, não é fácil. Mas, antes da Internet, era quase impossível. Hoje, basta mandar o computador selecionar apenas os candidatos que têm, por exemplo, inglês fluente. Em dois segundos, ficam apenas os que interessam. "No passado, éramos obrigados a ter um funcionário exclusivamente para abrir currículos enviados pelo correio", diz Denise Asnis, diretora adjunta de recursos humanos do BankBoston. "Isso acabou."

As empresas de informática, pela natureza do ofício, acabam sendo um dos alvos mais cobiçados pelos candidatos eletrônicos. A Microsoft é um bom exemplo disso. Ela tem hoje 180 funcionários no Brasil. Desse total, cerca de dez profissionais chegaram lá pela Internet, inclusive dois consultores com nível gerencial. "Até o final do ano, vamos abrir mais 35 vagas", diz Claudio Neszlinger, diretor de recursos humanos da Microsoft. A corrida para preenchê-las é grande. O site da empresa chega a receber 2 000 currículos por mês. É certo que a maioria deles vai para o lixo direto — uns 1 300 são de garotos de 13 anos, chefes de cozinha, estudantes de acupuntura, gente que não tem nada a ver. Mas os outros 700 continuam no páreo. A maior parte deles é de analistas e programadores. Depois vêm os universitários em geral e, por fim, os assistentes administrativos e contábeis. Todo dia é feita uma limpeza no banco de dados para separar o joio do trigo. Mesmo assim, o arquivo da Microsoft tem cerca de 19 000 nomes cadastrados. "No primeiro ano de existência do site, apenas um diretor colocou seu currículo", diz Neszlinger. "Eu o chamei para uma conversa. Embora não tenha dado certo, eu queria saber quem era essa ave rara."

Nos Estados Unidos, o site da Sun Microsystems, uma das principais empresas de tecnologia do mundo, tem cerca de 1 000 vagas sendo oferecidas. No Brasil, seu site recebe algo como 200 currículos por mês — dos quais 90 são de trainees, 50 para cargos técnicos (de gente formada há dois anos em média), 20 para postos administrativos (de pessoas com mais experiência) e 10 de gerentes. Os 30 restantes não servem para nada. Até agora nenhum diretor mandou seu currículo para lá. "Por enquanto ainda não decolou", diz Glaucia Teixeira, especialista em recursos humanos da Sun. "Mas não vai demorar para chegarmos ao mesmo nível do dos americanos."

Embora tudo indique que sim, que vamos mesmo emparelhar com os Estados Unidos -- país em que, descontados os presidentes de grandes empresas, não há nenhum tipo de cargo que não tenha sido preenchido pela Web --, o fato é que a confirmação disso só ao futuro pertence. Por mais que a Internet seja utilíssima para o mercado de trabalho, ela, como qualquer outra coisa, tem limites. O processo de busca é de uma eficiência notável, mas a rede não elimina currículos inventados nem a necessidade de um contato pessoal, frente a frente, em algum momento. Afinal, quem seria maluco de contratar uma babá sem conversar com ela pessoalmente? Ou colocar uma equipe de vendas de dez pessoas na mão de um gerente que ninguém tem idéia de como ele é ao vivo? Não, ninguém seria, e muito menos em postos considerados vitais pelas empresas. "Quanto mais alto for o cargo, ainda mais em corporações que faturam de 1 bilhão de dólares para cima, menor será a presença da Internet", diz o consultor Guilherme Velloso, sócio da PMC Amrop, empresa paulistana de contratação de executivos. Além disso, os cargos de altíssima confiança, como diretores, vice-presidentes e presidentes, costumam ser preenchidos por indicação -- não importa se por um colega da diretoria ou por um headhunter. O resultado disso é que, no Brasil, hoje a Web ainda encontra grande resistência do pessoal do primeiro escalão e principalmente de alguns headhunters. "Não tem sentido a busca de executivos ficar sob responsabilidade de um processo mecânico, como são os instrumentos de busca pela Web", afirma Carlos Diz, headhunter da Spencer Stuart. "A inteligência, a sensibilidade e a intuição humana são insubstituíveis na hora de encontrar a pessoa certa para a empresa certa."

Além disso, a resistência do primeiro escalão à Internet ainda tem outras explicações. A primeira delas: para os diretores, vices e presidentes, geralmente pessoas com mais idade, a Internet ainda é um bicho estranho -- ao passo que, para gente jovem como os trainees, ela é tão íntima quanto o controle remoto da TV. A segunda: ela simplesmente não seria confiável. Já se disse que apenas 1% dos executivos americanos trocaram de emprego pela rede. "Você entraria num avião se soubesse que ele só tem 1% de chance de chegar a seu destino?", pergunta Gutemberg Macedo, da Gutemberg Consultores. "No caso da Internet, eu entraria, mas não a maioria dos profissionais que conheço."

O terceiro motivo de desconfiança diz respeito ao sigilo das informações. A maioria dos executivos tem medo de se expor. Acha que, se colocar o currículo na Internet, todo mundo vai ver, inclusive, quem sabe, o próprio chefe. Isso não é verdade, já que na maioria dos sites o candidato pode esconder seu nome ou e-mail. No caso de mandar o currículo para uma empresa, ele vai direto para o departamento de recursos humanos. Essa exposição, inclusive, desvalorizaria o passe. "Muitos brasileiros são assim: se eu faço uma proposta para alguém que está empregado, na hora ele diz que está bem onde está, para tentar valorizar o passe", diz Claudio Neszlinger, da Microsoft. "É por isso que os executivos não põem currículo na Web: a lógica é que, ao oferecer o currículo na rede, o candidato está perdendo seu poder de barganha." Há ainda uma outra razão para que os brasileiros, principalmente os que acabaram de perder o emprego, sejam um tanto refratários à Web. "Os executivos nacionais têm vergonha de estar desempregados", diz Grace Pedreira de Cerqueira, vice-presidente da A.T. Kearney, uma das maiores consultorias do mundo. "Por isso, ele se esconde em vez de divulgar o currículo pela Internet."

Cada um escolhe seu caminho, mas é inegável que essas pessoas que resistem ao mercado de trabalho digital estejam remando contra a correnteza. Correm um enorme risco de perder excelentes oportunidades, no Brasil, no Canadá, na Europa, no México, na Austrália ou onde quer que elas estejam. Os sites de empregos e carreira estão crescendo em toda parte, em quantidade e em qualidade. Todo dia aparece coisa nova. Dá até para notar que a especialização dos sites de emprego é uma tendência nos Estados Unidos. Já há endereços específicos para motoristas de caminhão e pastores protestantes, entre muitos outros. Provavelmente não vai demorar para que apareçam sites só para gerentes de vendas ou diretores de marketing ou vice-presidentes de empresas de telecomunicações. Dentro em breve, mesmo no Brasil, os currículos de papel, enviados pelo correio, vão parecer tão antiquados quanto datilografar uma carta ou passar uma mensagem por telex -- e só isso já dirá muito sobre a qualidade do profissional que está buscando emprego (e certamente não será a favor dele). Por isso, se você nunca navegou num site de empregos ou de empresas, saiba que está perdendo tempo. Há uma nova linguagem sendo desenhada todos os dias na Internet. Quem não falar essa língua certamente não conseguirá mais se comunicar.

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