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  Novembro/2002 - Edição 53

   

   

   







você em equilíbrio

PESSOAL E INTRANSFERÍVEL

A paulistana Ana Cristina Limongi tem uma rotina bastante agitada. Ela divide seu tempo entre aulas, consultorias, palestras, pesquisas, projetos e os livros que escreve -- sem falar na educação dos filhos, no relacionamento com o namorado e em muitas outras demandas de sua vida pessoal. Nem um pouco diferente de muitos brasileiros que saem de casa por volta das 7 da manhã e raramente retornam a tempo de assistir ao Jornal Nacional. Curioso é que Ana Cristina pesquisa o tema qualidade de vida há mais de dez anos -- é ela quem coordena o Núcleo de Pesquisa em Gestão de Qualidade de Vida no Trabalho, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo. Mas não pense que Ana Cristina é adepta do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Ao contrário! "Qualidade de vida é o jeito que cada um escolhe para viver, e essa é a vida que eu quero para mim, pelo menos por enquanto", diz. Sua tese de livre-docência trata do assunto e vai ser transformada em um livro, que deve sair pela Editora Atlas no ano que vem. Nesta entrevista, ela fala mais sobre essa questão que interessa a todos nós -- profissional e pessoalmente falando.

Afinal, o que é ter qualidade de vida?
É o jeito que cada um escolhe para viver. Qualidade de vida é uma opção pessoal. Só que, para tomar uma decisão consciente, as pessoas precisam de informações. É por isso que digo que qualidade de vida tem a ver com escolhas de bem-estar -- claro que elas estão limitadas pelos padrões de convivência social. A idéia de associar exercícios físicos a qualidade de vida, por exemplo, nasceu nos Estados Unidos na década de 70. Para algumas pessoas realmente funciona assim, mas tem gente que abomina fazer ginástica. Essas pessoas podem optar por levar uma vida sedentária, mesmo sabendo dos prejuízos que isso acarreta para a saúde. Por mais estranho que possa parecer, tal atitude não deixa de ser uma escolha de bem-estar, uma vez que essas pessoas têm consciência da decisão que tomaram e não estão atrapalhando ninguém. Embora haja algumas linhas mestras, não dá para padronizar a qualidade de vida. Senão, vamos cair numa ditadura -- exatamente como a que impera no campo da estética corporal.

Em um de seus livros a senhora levanta a seguinte questão: qualidade de vida no trabalho é uma necessidade ou um modismo pós-industrial? Qual é a resposta?
Na verdade, qualidade de vida é uma necessidade e também tem a ver com a fase pós-industrial. O assunto começou a ser discutido porque, de certa forma, as empresas já passaram da fase de produção em massa e começaram a se preocupar com as pessoas. Todo o know-how de gestão e de competitividade foi desenvolvido em cima da produtividade. Primeiro, vinham os resultados; depois, as pessoas. Hoje, é necessário incluir a qualidade de vida no início do processo e não depois que os resultados foram alcançados. Além disso, é muito provável que a qualidade de vida não fosse reconhecida com uma ação relativa ao ambiente interno das organizações. Isso ajuda a explicar a sensação de que o tema é uma espécie de invenção da era pós-industrial.

Como o conceito de qualidade de vida deve ser aplicado nas empresas?
Para implantar um programa desse tipo, é preciso levar em conta o que os funcionários querem e o que a empresa deseja ou pode oferecer. Senão, vira aquela história de dar um presente inútil para alguém de quem você gosta muito. O diretor de uma empresa contou que certa vez gastou meio milhão de reais na festa de fim de ano. Esse, segundo ele, foi o programa de qualidade de vida deles. Acontece que os funcionários queriam financiamento para comprar a casa própria. Também não adianta criar um modelo e nunca mais mexer nele. As pessoas mudam, e o que elas querem para si mesmas também. Por isso qualidade de vida não deve ser encarada como uma ação global, mas como um conjunto de ações.

Qual é a importância que a qualidade de vida ocupa no mundo corporativo?
Um colega, que também é professor, diz que a qualidade de vida dos funcionários é um novo paradigma da administração. Saber administrá-la faz parte das competências que todo gestor deve ter.

Por que as empresas parecem ter tanta dificuldade em lidar com isso?
Acredito que é um misto de culpa e medo. Elas se sentem culpadas por não ter atentado para o fato antes e, por causa disso, vem o medo de mexer em questões que provavelmente estão represadas há muito tempo. É como rebentar um dique: pode ser que você perca o controle do processo. Por outro lado, existe um certo oportunismo da parte de quem é beneficiado pelos programas de qualidade de vida. Há funcionários que querem que a empresa adote medidas desse tipo, mas não se comprometem com absolutamente nada.

Será que o custo não é um empecilho para que as empresas implantem programas de qualidade de vida?
Acontece que o gasto que se tem com um programa assim muitas vezes é menor do que se imagina. Quer um exemplo? O custo de um tratamento fonoaudiológico pode ser de apenas 10 centavos/hora por funcionário. Sei também de casos em que a contratação de uma nutricionista saía mais barato que muitos dos equipamentos que a empresa comprou. E, depois, muitas medidas que se relacionam com qualidade de vida na empresa são cobradas pela própria legislação. Na minha opinião, o que os gestores têm a fazer é usar essa ferramenta com um conceito mais amplo.

Que tipo de profissional é o mais indicado para implantar um programa de qualidade de vida em uma companhia? É um consultor de RH?
Embora o departamento de RH muitas vezes coordene o processo, um programa desses tem espaço para a atuação de vários profissionais, do nutricionista ao psicólogo, passando pelo professor de educação física. Aliás, acredito que temos um ótimo nicho se formando no mercado. Tanto que já existem profissionais mandando imprimir "especialista em qualidade de vida" em seu cartão de visita.

A senhora acha que essa é uma questão que preocupa as organizações?
Não. Embora muitas já estejam trilhando esse caminho, acho que essas atitudes têm bem mais a ver com o perfil do fundador e com os produtos que eles fabricam. Na minha opinião, qualidade de vida ainda não faz parte da cultura corporativa. Mesmo assim, acredito que teremos mudanças significativas nos próximos cinco anos como reflexo de uma nova realidade social: aumento da expectativa de vida e do período de trabalho, mais consciência do direito à saúde, além do apelo a novos hábitos e estilos comportamentais.